Lobão em cena: Shakespeare no meio do nada

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*Soar do primeiro sinal* *Entra no palco um lobo com vestimentas garbosas*

Auuuuuuuuu~

Olá! Não estranhem o ambiente, estamos em um teatro porque a ocasião exige que seja este o local, peço que sentem-se e desfrutem da peça que está por vir.

Quantos de vocês conhecem Shakespeare? Um dos maiores (se não o maior) escritor de peças teatrais na história seja em suas tragédias fabulosas como “Hamlet”, “Macbeth” e “Rei Lear” ou suas comédias nem tão reconhecidas como “Muito Barulho Por Nada” entre outras.

*Soar do segundo sinal*

Esta postagem será diferente do que até mesmo eu estou acostumado, ela não será sobre o anime, não será sobre um episódio em especial, ela será sobre a batalha entre Toussaint Neshinbara VS. Shakespeare. A batalha mais emocionante que eu já vi nessa minha não-tão-longa-vida literária-anímistica (?), a batalha que me motivou a ler Shakespeare! Vou mostrar os pequenos detalhes que fizeram com que eu percebesse a genialidade por trás dessa batalha, o porquê de Horizon ser incrível em cada mísero detalhe e a razão pela qual comecei a admirar Minoru Kawakami.

*Segue para trás das cortinas*

*Soar do terceiro sinal* *Abertura das cortinas*

E que comece esta tragédia!

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Shakespeare: “Macbeth”, “Rei Lear” e “Muito Barulho Por Nada”

Durante a batalha Neshinbara VS. Shakespeare 3 peças são citadas e fundamentais para entender precisamente todo o contexto e genialidade sob quais elas foram aplicadas, com isso em mente farei um breve resumo delas e ao longo da postagem explicarei de que forma elas são aplicadas ao contexto do anime.

Macbeth: Aqui temos a história de Macbeth um dos generais do grande Rei da Escócia, Duncan, sendo induzido pela ganância de sua própria mulher, Lady Macbeth, a matar o Rei para usurpar o trono do mesmo; porém o importante aqui é manter em mente as seguinte partes da peça: Segundo a profecia, “Macbeth jamais será vencido enquanto a floresta de Birman não subir” e ao fato de que no último ato da peça, Macbeth é cercado em seu castelo pelo exército de Birman que está camuflado em plantas/folhagens, desse modo a floresta de Birman subiu contra o usurpador.

Rei Lear:  Nesta que é considerada a “triste história da velhice” o protagonista, Rei Lear, está prestes a se aposentar e deixar seus deveres reais para trás, porém ele jamais teve filhos e apenas 3 filhas: Goneril, Regana e Cordélia; no dia da partilha de bens o Rei pediu para que cada uma explicasse em palavras o tamanho do amor que sentiam por seu pai, Goneril diz que o amava tanto quanto o mundo,  quanto as árvores, o Rei fica satisfeito e entrega 1/3 do reino; na vez de Regana a mesma diz que o ama na mesma intensidade que Goneril descreveu, o Rei fica igualmente satisfeito e entrega 1/3 do reino; contudo na vez de Cordélia a mesma é sincera dizendo que não poderia descrever o amor que sente pelo seu pai, o Rei fica ensandecido e diz que ela não é mais sua filha, o foco nessa peça  é: O Rei Lear enlouquece ao longo da peça e ao final quando reencontra Cordélia sua única filha que realmente o amava ela é morta e o Rei enlouquecido pela dor morre com ela em seus braços.

Muito Barulho Por Nada: Esta que é uma das comédias mais hilárias de Shakespeare que conta a história do casal chamado Cláudio e Hero, que estão prestes a se casar em uma semana. Para passar o tempo antes do dia de seu casamento, eles conspiram com Dom Pedro, o príncipe de Aragão, para enganar seus amigos, Beatriz e Benedito, e fazê-los confessar seu amor um pelo outro. Dom João, no entanto, com inveja de tanto poder de Dom Pedro e seu afeto por Cláudio, planeja sabotar o casamento. Foco em: o casal principal quer passar o tempo juntos.

Passado esses resumos, vamos ao review de fato. Ah, peço que utilizem esses links para acompanhar as partes Neshinbara VS. Shakespeare:  Ato I e II e Ato III [Final]

Ato I

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A Musashi está perdendo a batalha quando Neshinbara entra na briga com seu poder “Palavra Pesada” (em uma tradução bem literal) e vai diretamente para cima da Shakespeare que surpreendentemente não sofreu arranhão algum com o golpe do mesmo, provando que um autor experiente não se abate por qualquer coisa.

Assim que batalha real começa Shakespeare invoca a sua segunda melhor tragédia, Macbeth, ~ao palco de batalha~ para confrontar Neshinbara em um duelo épico, Shakespeare começa citando trechos reais de sua própria obra como forma de comando sob Macbeth para que ele ataque o garoto, contudo o jovem autor percebe que caso seja tocado pelo usurpador ele mesmo vai se tornar o personagem principal da tragédia, com isso em mente o jovem tenta de toda forma combater Macbeth que é imortal (vide que nesse ponto Shakespeare cita a parte onde ele jamais será derrotado, a da profecia), Shakespeare segue citando a profecia e Neshinbara tentando em vão acabar com o usurpador.

Shakespeare decide que é hora seguir com a peça invocando Lady Macbeth com toda sua ganância para se tornar rainha, em um descuido do jovem autor Macbeth toca nele e finalmente o mesmo acaba assumindo o papel Teatral de Macbeth; Neshinbara alega que embora Shakespeare tenha conseguido fazer ele assumir o papel ela está sem energia para seguir a peça, aí começa o show.

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Neste momento Shakespeare saca o Armamento do Pecado Mortal, Aspida Philargia, que recebe todo dano causado a quem o carrega e transforma em ether (energia), Shakespeare diz que ela costuma receber muitos danos e você pode se questionar “como” visto nenhum dano “real” é causado a ela… Óbvio, a única dor real que pode ser causada a qualquer tipo de autor, crítica.

Shakespeare começa a citar os diversos tipos de críticas que a mesma recebe dos tão cheios de si “críticos”; pense comigo agora: Se um autor normal já recebe críticas tremendas, imagine alguém no patamar de Shakespeare, quanto dano ela não recebe e armazena naquela arma? A mesma alega que isso não passa de pura opinião pessoal, que uma crítica não afeta ela; após isso uma breve conversa ocorre entre ambos sob seu passado.

Neshinbara pelo choque da revelação não percebe o retorno de Macbeth ao palco e é ainda mais absorvido para dentro da peça, no exato momento em que exército de Birman está prestes a atacar ele utiliza um movimento desesperado e escapa; percebem que tudo seguiu a peça como citei? Demonstrando que realmente não foi algo “por acaso”, Kawakimi sabia o que estava fazendo.

Ato II

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Aqui entramos em um ritmo mais tranquilo onde Neshinbara está em uma convenção quando Shakespeare reaparece, ela senta-se tranquilamente ao seu lado e diz que outra peça está prestes a começar, no caso “Muito Barulho Por Nada” é a peça em questão, caso reparem bem no contexto da peça percebem que Tori encarna o papel de Cláudio e Horizon o da Hero (um exemplo melhor: Encontro), todo o resto torna-se uma batalha/comédia; minucioso e preciso.

Shakespeare segue questionando Neshinbara sobre suas reais intenções e questiona se ele se lembra de qual “das garotas” ela é…

Ato III [Final]

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O palco derradeiro de uma batalha literária, Neshinbara lembra a Shakespeare que nunca ouve “duas garotas” e sim personalidades distintas dentro da prória Shakespeare, ocorre um discurso até idealista sobre “o que satisfaz um autor” dizendo que desde que apreciem sua obra ele não se importa com críticas, mas jura que vai alcançar o patamar de Shakespeare onde uma obra é criticada e longamente discutida anos a fio.

A batalha recomeça com Shakespeare ordenando que o exército de Birman acabe com Neshinbara [Macbeth, no caso da peça], novamente citando trechos reais de sua obra ela exalta o quão corajosos são os soldados e a forma como eles saíram de camuflados para a batalha derradeira, citando ainda que são um exército formidável cercando o castelo do usurpador; Neshinbara segue em frente sem hesitar contra o exército mas nesse momento ele percebe que Shakespeare invocou para o palco todas as suas obras.

De maneira simbólica todos os personagens tornam-se um, Rei Lear, a obra suprema como a própria Shakespeare diz; ela menciona conforme a peça para que o Rei morra conforme grita com toda dor e luto pela morte da jovem Cordélia e exige que ele vença conforme urra por sua perda, Neshinbara não hesita e como forma de contra-atacar e invoca ao palco o Deus da Literatura, a Divindade Michizane (após alguma pesquisa desconfio que a tal divindade seja esse poeta); nada mais justo do que para encerrar uma batalha literária que cada autor comece a editar o trabalho do outro, o ápice ocorre quando Shakespeare diz que um autor profissional jamais para de editar mesmo morto, talvez uma forma simbólica de dizer que uma obra vive por anos.

Neshinbara e Shakespeare seguem ferrenhamente batalhando um contra o outro na tentativa de provarem qual dos dois é melhor autor, no auge um flashback para relembrar os laços entre ambos; Shakespeare grita para que o Rei ataque com toda dor e Neshinbara grita para Michizane que ele ataque de uma forma que alcance a justiça do rei, o ponto fraco dele visto que cometeu o maior dos erros ao julgar sua filha Cordélia, Shakespeare argumenta se vale mesmo a pena mesmo seguir com essa peça, com essa justiça do Rei se dela nascerá uma tragédia e Neshinbara urra que não importa! Em um lance de espadas e argumentos a justiça de Michizane é colocada a prova pelo próprio Rei e ambos travam um último duelo de espadas com um berro de Shakespeare ao fundo questionando para onde deveria seguir!

Nesse momento o Rei chora com o corpo de sua própria filha em seus braços entendendo no que sua própria justiça resultou, Neshinbara genialmente invoca ao palco o único que poderia acabar com a dor e justiça do Rei, Macbeth! Shakespeare diz que isso é loucura, mas Neshinbara alega que isso é editar, algo que o mesmo poderia fazer por justamente ter sido incumbido do papel de Shakespeare, surpreendentemente Macbeth o usurpador avança na direção do rei com um Neshinbara ao fundo dizendo que história são flexíveis e sujeitas a mudanças; Macbeth parte na direção do rei para impedir uma tragédia e com um golpe limpo trespassa o Rei que finalmente pode partir em paz.

Conforme ambos Macbeth e Lear desaparecem Shakespeare menciona a real história do Rei Lear que foi alterada pelo antigo Shakespeare para que fosse uma tragédia, Neshinbara sorri e rouba o armamento dela alegando ser Macbeth pedindo assim para que os cidadãos deem uma espécie de salva de palmas pela belíssima nova peça proporcionada pela Shakespeare; timidamente Shakespeare pergunta para Neshinbara se ficaria tudo bem caso Macbeth ficasse com o rei, simbolizando o próprio Neshinbara e a Shakespeare. Um belíssimo final de batalha.

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Opinião Lupina

Horizon nessa batalha me emocionou ao ponto de me sentir obrigado a ler as obras de Shakespeare para entender claramente todo o contexto subjetivo dessa batalha, toda a relação das peças teatrais e a forma como foi inserida na série.

Acima de tudo isso, quis demonstrar que Kawakimi não fez a utilização dessas 3 obras por acaso, foi justamente por elas dialogarem entre si, a de um Rei perdido em loucura, a de um usurpador e a de um casal. Minha admiração para o Kawakimi como autor criativo apenas cresceu, maravilhoso de verdade.

Leiam Shakespeare, assistam Horizon, entendam a genialidade.

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